Quando me perguntam qual é minha profissão, hesito. Não por insegurança, mas porque nenhuma das duas palavras — designer ou marceneiro — conta a história toda. A verdade é que a Que Mãos existe no espaço entre esses dois mundos, e é dessa tensão criativa que nascem minhas peças.
As Duas Vozes Criativas
O Designer
O designer em mim é um sonhador. Ele não pergunta se algo é possível; ele pergunta se é bonito, se comunica uma ideia, se provoca emoção. Nos meus sketchbooks, há curvas impossíveis e junções que desafiam a física — porque, no papel, a liberdade não tem limites.
O Marceneiro
Já o marceneiro é meu pé no chão. Ele olha para aqueles sketches e ri. ‘Como você vai fazer isso sem a madeira rachar?’, ele pergunta. E então começa o diálogo mais fascinante: a negociação entre o ideal e o possível.
Exemplo Prático:
Atualmente, há uma peça em minha bancada que personifica essa guerra criativa: a Luminária Da Vinci. Seus desenhos manuais estão prontos — conexões, movimentações e passagens para o fio complexas. Mas o marceneiro em mim sabe que a realidade física exige concessões. Eis alguns dilemas:
1. A Base: Estabilidade vs. Estética
O designer quer pés com proporção elegante, que geram um baixo volume de madeira. O marceneiro exige peso para evitar tombamentos. Solução provisória? Usar metal no interior da base de madeira — um ‘segredo’ técnico que preserva a silhueta pura, mas ainda me faz questionar: ‘Estou traindo a materialidade da Que Mãos?’
2. A Coluna: O Furo Impossível
O designer sonhou com um furo central longo e contínuo para passar os fios invisivelmente. O marceneiro riu: ‘Não existe broca tão longa no mercado’. A alternativa? Dividir a coluna em duas partes com rebaixo interno — mas isso deixaria uma linha de cola visível. O impasse continua.
3. Montagem: Beleza vs. Logística
O designer rejeita parafusos aparentes. O marceneiro insiste: ‘Ela precisa ser desmontável para transporte’. Estamos testando encaixes, mas a solução final ainda é um rascunho.
Essa luminária ainda não está pronta — e talvez seja justamente por isso que ela é tão importante. Ela me lembra, todos os dias, que criar peças autorais não é sobre vencer obstáculos, mas sobre negociar com eles.
O Conflito que Gera Excelência
Por Que Não Abrir Mão de Nenhum Dos Dois
Se eu fosse apenas designer, minhas peças seriam conceitos lindos — e intocáveis. Se fosse apenas marceneiro, seriam funcionais, mas sem alma. A magia está na fricção entre os dois.”
“Existe um provérbio que diz: ‘O bom marceneiro ouve a árvore’. Eu complemento: ‘O bom designer ouve o desejo. E o meu trabalho é traduzir um no outro’.”
Conclusão: A Beleza do Híbrido
Não escolhi entre designer e marceneiro porque a Que Mãos não é uma soma de partes — é uma alquimia. E talvez essa seja a lição que carrego: em um mundo que cobra especialização, há poder em ser ponte. Madeira e ideia, função e poesia, mão e mente. No fim, é isso que assino: não um título, mas um processo.



