
Existem formas que carregamos por toda a vida, mesmo sem perceber.
Na escola, a matemática era a matéria com a qual eu mais me identificava. Gostava do desafio de resolver expressões numéricas e da lógica que fazia tudo, aos poucos, encontrar seu lugar. Enquanto muitos enxergavam apenas números, eu também prestava atenção às formas.
Parênteses, colchetes e, principalmente, as chavetas.
Elas organizavam operações, delimitavam conjuntos e mostravam, visualmente, como cada parte se relacionava com a outra. Havia algo de elegante na maneira como conduziam o olhar por uma expressão.
O desenho antes do objeto
Sempre fiz questão de desenhá-las à mão. Buscava um traço contínuo, fluido, quase como um exercício de caligrafia.
Nos cantos dos cadernos, enquanto esperava a próxima aula ou resolvia um problema, as chavetas apareciam repetidas vezes. Sem perceber, aquele símbolo matemático também se tornou um exercício de desenho.
Hoje entendo que aqueles rabiscos eram mais do que distrações. Eram uma forma de observar, praticar proporções e buscar a beleza em um elemento criado apenas para organizar informações.
Quando a memória encontra a madeira
Anos depois, já trabalhando com design e madeira, essa lembrança voltou.
Percebi que aquela forma, que durante tanto tempo pertenceu ao papel, também podia existir como objeto.
Foi assim que nasceu o Incensário Chaveta.
Sua silhueta preserva a fluidez do traço que eu buscava nos cadernos, agora reinterpretada na madeira. Um símbolo criado para organizar ideias passa a organizar um momento de pausa.
Um novo significado
Enquanto a chaveta da matemática agrupa operações e conduz um raciocínio até o resultado, o incensário propõe outra forma de organização.
Ele organiza o tempo.
Ao acender um incenso, criamos um pequeno intervalo entre as tarefas do dia. A fumaça desenha o ar, o ritmo desacelera e a atenção encontra um ponto de apoio.
O objeto deixa de ser apenas um suporte para o incenso e passa a marcar o início de um momento de presença.
Entre a lógica e a contemplação
Talvez seja por isso que esta peça tenha um significado especial para mim.
Ela representa o encontro entre dois mundos que sempre fizeram parte da minha história: a lógica da matemática e a liberdade do desenho.
Durante muito tempo pensei que fossem caminhos diferentes.
Hoje percebo que ambos procuram a mesma coisa: dar forma às ideias.
O design também é uma maneira de organizar o pensamento. E, às vezes, tudo começa com um simples traço.
